Empresas capitalizadas mantêm investimentos

Data: 28/10/2008

Sergio Lamucci, de Campinas
A crise financeira global se agravou fortemente nas últimas semanas, mas várias empresas ainda não tiveram os seus negócios afetados pela turbulência. Em evento promovido ontem pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), em Campinas, várias companhias relataram ao Valor não ter percebido nenhuma redução da demanda, e houve até quem dissesse que o momento é bom para comprar ativos, que ficaram mais baratos em dólar devido à desvalorização do câmbio. Além disso, as empresas que têm dinheiro em caixa ou só operam com recursos próprios conseguiram passar ao largo da contração do crédito.
Para 2009, porém, há muita cautela, que se traduz em expectativas mais modestas de faturamento e em alguma moderação no ritmo de investimento. Empresa que fabrica carrocerias e contêineres, a Embark não viu os negócios piorarem nas últimas semanas. Segundo o sócio-gerente da companhia, Saulo Duarte Pinto Jr., a empresa tem uma boa carteira de pedidos até o começo do ano que vem, tendo inclusive fechado um contrato importante com uma grande empresa há 15 dias. Desde que a crise recrudesceu, Pinto não precisou recorrer a empréstimos bancários, de modo que a turbulência ainda não atingiu os seus negócios.

"O meu medo é o que vai ocorrer a partir do começo do ano que vem", afirma ele, vice-presidente do Ibef, no 19º Congresso Nacional de Executivos de Finanças (Conef). Nesse cenário de maior cautela, Pinto Jr. decidiu manter projetos mais simples, como o de substituição de máquinas, mas adiou uma expansão física da empresa, que começaria a ser tocada no fim do ano. O presidente para a América Latina da Actaris, Fernando Perches, diz que a empresa, fabricante de medidores de energia elétrica, água e gás, ainda não foi afetada pela crise. Como só trabalha com recursos próprios - mesmo para a exportação a companhia não recorre aos Adiantamentos de Contratos de Câmbio (ACCs) -, a piora nas condições de crédito não causou problemas. Perches ficou animado com a desvalorização do câmbio, já que cerca de 35% do seu faturamento vem das exportações. O salto do dólar da casa de R$ 1,60 para R$ 2,20 a R$ 2,30 vai melhorar a rentabilidade das vendas externas. Assim como Pinto Jr., porém, Perches mostra cautela em relação a 2009.

A empresa, em fase de definição do planejamento estratégico para o ano que vem, pode reduzir investimentos não estratégicos, afirma ele. As projeções para a expansão do faturamento em 2009 devem ser diminuídas de um crescimento de 15% para 7%, num cenário em que a economia global vai sofrer uma forte desaceleração e a brasileira também vai perder um pouco de fôlego. Em 2008, o número deve ficar em 20%. O diretor-financeiro da Dell, Hans Lochs, diz que a empresa ainda não reviu os seus planos de investimento para 2009, apesar da crise global. Segundo Lochs, a demanda de clientes corporativos e pessoa física não diminuiu, pelo menos por enquanto. A alta do dólar, porém, afetou a empresa, que tem cerca de 90% de seus custos direta ou indiretamente dolarizados. Lochs diz que os aumentos de preços ficaram entre 10% e 15%. Na CPFL Energia, a crise ainda não levou a empresa a rever planos de investimento, segundo o vicepresidente financeiro, José Antônio de Almeida Filippo. Ele diz que a companhia não precisou acessar o mercado de crédito nas últimas semanas. De acordo com Filippo, os projetos da CPFL têm um horizonte de longo prazo e contam com financiamento do BNDES. Até o momento, o consumo de energia industrial e residencial não foi afetado, afirma ele, ressaltando, porém, que o clima entre os empresários é de "cautela".

O sócio-controlador do Grupo Advento, Juan Quirós, tem uma visão diferente. Para ele, o momento é favorável para quem tem dinheiro em caixa comprar ativos, que se encontram baratos dado o nível do câmbio. O Grupo Advento, que atua no setor de engenharia e construção, deve fechar a compra de uma empresa de montagens industriais.